Sexta-feira Santa e a tradição do silêncio: fé, respeito e costumes marcam a Semana Santa nas comunidades

Além das procissões, orações e celebrações religiosas, tradições culturais como a Folia de Reis também mantêm o costume de silêncio durante a Quaresma, em sinal de respeito ao período de penitência e reflexão da Igreja.

A Sexta-feira Santa, também conhecida como Sexta-feira da Paixão, é uma das datas mais importantes do calendário cristão. Celebrada durante a Semana Santa, ela recorda a crucificação e morte de Jesus Cristo e é marcada por momentos de oração, silêncio, reflexão e tradições religiosas em todo o Brasil e no mundo.

A data não é considerada um dia de festa, mas sim de respeito e recolhimento. Em muitas cidades do interior, a Sexta-feira Santa é vivida com muita fé, com igrejas cheias, procissões, encenações da Paixão de Cristo e famílias reunidas em oração.

A Sexta-feira Santa relembra o julgamento, a condenação, a crucificação e a morte de Jesus Cristo no Calvário. Para os cristãos, esse é o momento que representa o sacrifício de Jesus pela humanidade. Nas igrejas, o dia é marcado pela Celebração da Paixão do Senhor, com leitura da Paixão de Cristo, adoração da cruz e momentos de silêncio e reflexão.

Além das celebrações religiosas, a Sexta-feira Santa também é marcada por diversas tradições populares que passam de geração em geração, como não comer carne vermelha, manter um clima de silêncio, participar de procissões e rezar em família.


Folias de Reis e o respeito ao período da Quaresma

Nas comunidades onde a tradição das Folias de Reis permanece viva, o período da Quaresma é tratado com profundo respeito. Dentro da tradição de muitas companhias, o entendimento é de que não é tempo de realizar giros, já que a Folia de Reis anuncia o nascimento de Jesus Cristo, enquanto a Quaresma é vivida como período de silêncio, penitência, conversão e reflexão sobre a Paixão e morte de Cristo.

Para os foliões mais antigos e para muitos capitães e embaixadores, a Companhia de Reis tem seu tempo próprio de saída e chegada, mantendo o giro dentro do ciclo tradicional ligado ao nascimento de Jesus e à jornada dos Reis Magos, entre o Natal e o Dia de Reis, em 6 de janeiro. Assim, o respeito à Quaresma é visto não apenas como costume, mas como parte da fé e da identidade religiosa da própria folia.

Essa compreensão foi reforçada por representantes da tradição em Dom Aquino, no Mato Grosso. Para Silvanio Freitas, mestre embaixador da Folia de Reis Boa Semente, a realização de giros durante a Quaresma não está de acordo com o sentido religioso da folia.

Não concordo não, porque período de quaresma não é período de girar com folia de reis, porque folia de reis prega o nascimento de Jesus, ela prega a viagem dos reis e a adoração, e quaresma representa o padecimento de Cristo”, afirmou.

Silvanio também destacou que, dentro da vivência da companhia, a Quaresma é um tempo de exame interior e mudança de vida.
A quaresma é momento de reflexão. A gente como folia se coloca na vida de Jesus, no que ele passou e no que ele fez para livrar nós do pecado. Então é momento dos foliões refletirem o que a gente faz de errado durante o ano e o que a gente tem de melhorar”, explicou.

Ao falar sobre a tradição que aprendeu, ele reforçou que o giro deve acontecer no período correto.
Eu só giro com folia de reis na época de 25 de dezembro até o dia 6 de janeiro, porque estamos representando a geração daquela época e temos que fazer da maneira correta”, disse.

Para ele, respeitar esse costume é essencial para a continuidade da tradição.
Se nós que somos embaixadores não respeitar esses costumes, o que vai ser da geração futura?”, questionou.

Também em Dom Aquino, Luan Afonso da Silva, contra-mestre da Folia de Reis Boa Semente, segue a mesma linha de pensamento. Para ele, a Folia de Reis está diretamente ligada ao anúncio do nascimento de Cristo e, por isso, não deve ocupar um tempo litúrgico marcado pelo sofrimento e pela penitência.

Não concordo, porque a Folia de Reis anuncia o nascimento, tempo de alegria sobre a vinda do Salvador que é Jesus Cristo. Já a Quaresma é tempo de silêncio, penitência e conversão. A folia nessa época fica em silêncio em respeito à liturgia”, afirmou.

Segundo Luan, a Quaresma representa, para a companhia, um tempo de recolhimento e reverência.
Pra nossa companhia, a Quaresma representa tempo de recolhimento, tempo de oração e respeito por aquele que veio ao mundo e morreu pelos nossos pecados”, disse.

Ele também explicou que, na tradição que recebeu, a companhia tem um ciclo próprio e bem definido.
A companhia de reis tem seu tempo de saída e chegada: saída depois do dia 25 de dezembro e chegada no dia 6 de janeiro”, explicou.

Para Luan, seguir esse ensinamento é uma forma de preservar a essência da própria Folia de Reis.
É importante porque não é só costume, é fé e tradição. Fé naquele que veio na simplicidade para nos salvar”, destacou.


Tradição, fé e cultura caminham juntas

No interior mineiro e em diversas regiões do Brasil, a Semana Santa continua sendo um dos períodos mais importantes do ano. Igrejas são enfeitadas, acontecem procissões do Senhor Morto, Via-Sacra pelas ruas e encenações que relembram os últimos momentos de Jesus Cristo.

Muitas famílias mantêm costumes antigos, como preparar alimentos simples, evitar festas e aproveitar o período para reflexão e oração. É um tempo em que religiosidade, cultura popular e tradição caminham juntas.

A Sexta-feira Santa faz parte do Tríduo Pascal, que inclui a Quinta-feira Santa, a Sexta-feira Santa, o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa, quando os cristãos celebram a ressurreição de Jesus Cristo e a renovação da esperança.

Mais do que uma data religiosa, a Sexta-feira Santa representa um momento de silêncio, fé, tradição e respeito, valores que continuam vivos nas comunidades e também nas manifestações culturais populares, como as Folias de Reis, que encontram na própria tradição a orientação para viver cada tempo do calendário religioso da maneira correta.

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